Receber o diagnóstico de hérnia de disco lombar costuma vir acompanhado de medo: medo de precisar de cirurgia, medo de nunca mais treinar, medo de que qualquer movimento piore o quadro. A boa notícia é que a ciência mostra um cenário bem diferente. Na maioria dos casos, a hérnia de disco tem tratamento conservador eficaz e não significa o fim da vida ativa — inclusive para quem treina musculação ou pratica jiu-jitsu.
O que é uma hérnia de disco?
A coluna vertebral é formada por vértebras separadas por discos intervertebrais, estruturas que funcionam como amortecedores naturais. Cada disco possui uma parte externa resistente, chamada anel fibroso, e uma região central mais gelatinosa, conhecida como núcleo pulposo. Com o envelhecimento, sobrecargas repetitivas ou outros fatores, o disco pode sofrer alterações estruturais e permitir que parte do núcleo se projete para fora do seu espaço habitual. Quando essa alteração comprime ou irrita estruturas nervosas, podem surgir sintomas como dor, formigamento, perda de sensibilidade e diminuição da força.
Veja os 4 tipos de hérnia de disco, se o tamanho da hérnia determina a dor, como a fisioterapia trata cada caso, se dá para fazer musculação e quando a cirurgia realmente é necessária.
É importante destacar que nem toda hérnia de disco causa dor. Estudos mostram que muitas pessoas apresentam hérnias na ressonância magnética sem qualquer sintoma. Por isso, o diagnóstico deve sempre considerar a história clínica e o exame físico, e não apenas os exames de imagem.
Quais são os tipos de hérnia de disco?
Segundo a classificação da North American Spine Society (NASS), da American Society of Spine Radiology (ASSR) e da American Society of Neuroradiology (ASNR), as alterações discais podem ser classificadas em quatro principais tipos.
Abaulamento discal
A alteração mais leve. O disco se projeta de forma difusa além dos seus limites normais, mas sem ruptura localizada do anel fibroso. É um achado frequente em exames de imagem, mas muitas vezes não está relacionado aos sintomas do paciente.
Protrusão discal
O núcleo pulposo empurra o anel fibroso, formando uma saliência localizada. O material ainda permanece relativamente contido, e a base da lesão é maior do que a parte projetada. Dependendo da localização, pode comprimir raízes nervosas.
Extrusão discal
Ocorre uma ruptura maior do anel fibroso, permitindo que parte do núcleo ultrapasse os limites do disco, com uma porção projetada maior do que sua base de conexão. Apesar disso, muitas hérnias extrusas apresentam regressão espontânea ao longo do tempo.
Hérnia sequestrada
A forma mais avançada: um fragmento do núcleo pulposo se desprende completamente do disco e permanece livre dentro do canal vertebral. Apesar de parecer mais grave nos exames de imagem, é o tipo com uma das maiores taxas de reabsorção espontânea pelo organismo.
O tamanho da hérnia determina a intensidade da dor?
Não. Essa é uma das maiores dúvidas dos pacientes. Uma hérnia grande pode causar poucos sintomas, enquanto uma pequena hérnia localizada exatamente sobre uma raiz nervosa pode provocar dor intensa. Além do tamanho da lesão, fatores como inflamação, localização da hérnia, sensibilidade individual e alterações do sistema nervoso influenciam a intensidade da dor.
A ressonância magnética nunca deve ser interpretada isoladamente. O que define o tratamento é a combinação entre exame de imagem, história clínica e exame físico.
Como a fisioterapia trata a hérnia de disco?
Na maioria dos casos, a fisioterapia é o tratamento de primeira escolha, especialmente quando não existem sinais de alerta que indiquem necessidade de avaliação cirúrgica urgente. O objetivo da reabilitação não é "colocar a hérnia no lugar", mas reduzir a dor, restaurar a função e permitir que o paciente volte às suas atividades com segurança. O tratamento é individualizado e pode incluir:
Educação
Explicar ao paciente como a hérnia realmente funciona reduz o medo do movimento e melhora a adesão ao tratamento. Entender que dor não significa necessariamente piora da lesão é um passo importante para a recuperação.
Exercícios terapêuticos
As diretrizes internacionais apontam os exercícios como o principal componente do tratamento conservador. O programa pode incluir:
- Fortalecimento do core
- Fortalecimento de glúteos e membros inferiores
- Exercícios de mobilidade
- Controle motor
- Estabilização lombar
- Condicionamento físico progressivo
Não existe um exercício único que sirva para todos os pacientes. A escolha depende dos sintomas, das limitações funcionais e dos objetivos individuais.
Terapia manual
Em alguns casos, mobilizações articulares e técnicas manuais podem ajudar a reduzir a dor e melhorar a mobilidade, facilitando a realização dos exercícios. Esses recursos devem ser utilizados como complemento, e não como tratamento isolado.
Retorno gradual às atividades
A literatura atual recomenda que o paciente permaneça ativo sempre que possível. Após o controle dos sintomas, as atividades do dia a dia, a musculação e os esportes podem ser retomados de forma progressiva, respeitando a evolução clínica e a capacidade funcional de cada pessoa.
Quem tem hérnia de disco pode fazer musculação?
Na maioria dos casos, sim. A musculação não é contraindicada para quem tem hérnia de disco. Pelo contrário, quando bem orientada, ela pode contribuir para o fortalecimento da musculatura, melhora da capacidade funcional e redução das recorrências. O mais importante é que a progressão da carga seja individualizada e respeite a fase da recuperação.
E quem pratica jiu-jitsu, pode voltar aos treinos?
Essa é uma dúvida frequente entre atletas de esportes de combate. O jiu-jitsu, por si só, não é a causa direta da hérnia de disco, mas movimentos de queda, torção e sobrecarga repetida na coluna podem contribuir para o desgaste discal ao longo do tempo, principalmente sem preparação física adequada. Fortalecimento de core, mobilidade de quadril e técnica correta de queda são aliados importantes na prevenção. Para quem já foi diagnosticado, o retorno ao tatame costuma ser progressivo e seguro, com acompanhamento fisioterapêutico orientando cada etapa.
Quando a cirurgia pode ser necessária?
Embora a maioria dos pacientes apresente boa evolução com tratamento conservador, algumas situações exigem avaliação médica imediata, como:
- Perda progressiva de força
- Alterações no controle da bexiga ou do intestino
- Perda de sensibilidade na região íntima
- Dor intensa que não melhora mesmo após tratamento adequado
Fora dessas situações, a fisioterapia costuma ser a principal estratégia de tratamento. Os sinais acima são exceção, não regra — mas exigem avaliação médica sem demora.
Conclusão: hérnia de disco tem cura?
Receber o diagnóstico de hérnia de disco não significa, necessariamente, que você precisará de cirurgia ou que deverá abandonar os exercícios físicos. A maioria dos pacientes evolui bem com um tratamento conservador baseado em educação, exercícios terapêuticos e retorno progressivo às atividades.
Uma avaliação fisioterapêutica detalhada é fundamental para identificar as limitações de cada paciente e elaborar um plano de tratamento individualizado, permitindo um retorno seguro às atividades e reduzindo o risco de novas crises.
DOR NAS COSTAS OU DIAGNÓSTICO DE HÉRNIA?
AVALIAÇÃO NA STRONGER
Atendimento presencial em Vila Olímpia, São Paulo. Avaliamos seu quadro além da ressonância e montamos um plano individualizado para você voltar a treinar com segurança.
Agendar pelo WhatsApp →Perguntas frequentes
Referências científicas
- Fardon DF, Williams AL, Dohring EJ, Murtagh FR, Gabriel Rothman SL, Sze GK. Lumbar disc nomenclature: version 2.0. Recommendations of the combined task forces of the North American Spine Society, the American Society of Spine Radiology and the American Society of Neuroradiology. Spine J. 2014;14(11):2525-2545.
- Yaman O, Guchkha A, Vaishya S, Zileli M, Zygourakis C, Oertel J. The role of conservative treatment in lumbar disc herniations: WFNS spine committee recommendations. World Neurosurg X. 2024;22:100277.
- Delitto A, George SZ, Van Dillen L, et al. Low back pain. Clinical practice guidelines linked to the International Classification of Functioning, Disability and Health from the Orthopaedic Section of the American Physical Therapy Association. J Orthop Sports Phys Ther. 2012;42(4):A1-A57.
- Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A, et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018;391(10137):2356-2367.
- Chiu CC, Chuang TY, Chang KH, Wu CH, Lin PW, Hsu WY. The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc: a systematic review. Clin Rehabil. 2015;29(2):184-195.